Tradição Católica

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Tradição Católica

A Tradição católica é a autoridade e a acção contínua da Igreja Católica, que através dos apóstolos e da sucessão apostólica, transmite “tudo aquilo que ela [a Igreja católica] é e tudo quanto [ela] acredita”, para todo o mundo ininterruptamente desde o advento salvífico de Cristo até os tempos hodiernos. (conf. Dei Verbum, 1965) Esta acção contínua implica também a organização do culto e a formulação da doutrina católica e das regras de vida, para assegurar a verdade revelada e a fé dos católicos.

A Tradição católica, que transmite fiel e ininterruptamente a Revelação divina até aos dias de hoje, pode ser escrita (Bíblia) ou pode ser oral (os genuínos costumes, hábitos, tradições, afirmações e ensinamentos dos Apóstolos, mas também dos Padres e Doutores da Igreja, dos Santos, dos Papas ou dos concílios ecuménicos, que depois podem ser registados por escrito). Por isso, a Igreja Católica “não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas”, querendo isto dizer que as Tradições oral e escrita “devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência”.

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As duas partes da Tradição

No decorrer dos tempos, a Igreja católica deixou vestígios de sua existência —aqui estes vestígios se restringem aos atos, de fé e de moral, que a Igreja Católica fez durante sua história. Estes vestígios sempre reportam a Cristo, e são em sua maioria escritos em forma de pergaminhos, livros, documentos, cartas e mais recentemente até mesmo locuções e filmagens gravadas. Tudo isso é conhecido como sendo a parte material da Tradição católica. Esta parte material, por si só, é morta e não tem valor nenhum. E nas palavras de Bento XVI, “a Tradição católica não é transmissão de coisas ou palavras, uma coleção de coisas mortas”. Antes, a Tradição católica é viva. E o que lhe da vida é a justa hermenêutica dos vestígios da Igreja católica no decorrer da história humana. Esta hermenêutica é a parte formal da Tradição católica. Quando esta parte formal se encontra unida à parte material, a Tradição católica se torna como que um “rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes”. (conf. BENTO XVI, 2006).

Segundo esta definição acima, a Tradição católica é composta de duas partes, como as nomeiam os filósofos tomistas: sua parte material, ou seja, os vestígios de Cristo na história, quer sejam de Jesus Cristo quer sejam da Igreja católica. E de sua parte formal, ou seja, da justa hermenêutica cuja autoridade e valor se fundamentam na própria Igreja católica. Foi assim também que o Concílio de Trento entendeu e considerou a Tradição católica, como sendo “uma sucessão contínua na Igreja católica”.(conf. Concílio de Trento, 1546).

A parte formal da Tradição

Toda a hermenêutica necessita de uma mente ou inteligência. Ora, para os católicos, Jesus Cristo homem, não só é chefe da Cristandade, mas é parte de uma mesma realidade na Igreja Católica. Esta realidade é comparada pelo apóstolo São Paulo, com o corpo, dando a origem à idéia de corpo místico de Cristo. Assim, Jesus Cristo seria a cabeça do corpo místico, enquanto que todos os outros católicos seriam os membros desta mesma e única realidade do corpo místico de Cristo. Este corpo místico também é chamado de Cristo-igreja, que se estende na história da cristandade.

Assim, a Inteligência que dá a justa hermenêutica ao católico, é a Inteligência de Cristo-Igreja que desde quando criada, corre pela história do gênero humano como um rio de graças e dons, dando a entender aquilo que se deve entender a respeito de um Deus feito homem. Para o católico este Deus é Jesus Cristo que como um rio, desde o princípio do advento salvífico, juntamente e igualmente com a Igreja jorra fonte de vida e luz em toda a humanidade.

Esta Inteligência de Cristo-Igreja se expressa verbalmente em seus ensinamentos, através do vigário de Cristo cá na terra, o Papa. Assim, é a Igreja católica, através do Papa, que se expressando, dá ao católico o entendimento da “justa chave de leitura e de aplicação” de todos os vestígios passados da Igreja quer sejam eles escritos em forma de pergaminhos, livros, documentos, ou cartas etc. (conf. Msgr. GEORGE AGIUS, 1928).

Tradição viva

Assim, uma característica de maior importância para os católicos é a consideração do “…caráter vivo da Tradição, ‘que – como é claramente ensinado pelo Concílio Vaticano II – sendo transmitida pelos Apóstolos … progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo. Com efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração, quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer merce da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma da verdade’”(JOÃO PAULO II, 1988).

Mas, a consideração do carácter vivo da Tradição não quer dizer que a Revelação divina (e até os dogmas proclamados) seja, ao longo dos tempos, remodelada e corrigida, mas sim, que é na compreensão da Igreja acerca da Revelação que sofre progressão e correcções purificadoras. Esta compreensão gradual, o que implica o desenvolvimento da doutrina, é preciso prosseguir-se com muito cuidado pelo Magistério da Igreja, nomeadamente pelo Papa, que possui infalibilidade em questões de fé e moral, no sentido de manter a integridade e fidelidade da doutrina e fé católicas à Revelação. Esta tarefa exclusivamente confiada ao Magistério da Igreja é diferente da atitude modernista e subjectivista adoptada por alguns católicos em relação aos assuntos doutrinais. Esta atitude consiste em modificar a doutrina católica só para ela ser compatível com o modo de vida modernista dos católicos defensores desta atitude, que é expressamente condenada pela Igreja.

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