Raio-X dos primeiros Cristãos (Séculos I e II)

Conforme prometido estaremos iniciando a série de artigos referentes a os primeiros cristãos da história com o intuito de abordar a vida cotidiana, comportamento, convivência com a sociedade e a coexistência em meio aos conflitos entre a filosofia cristã, então uma jovem religião, com o paganismo que correspondia a ordem politico-religiosa da época.

Mergulharemos num mundo muito diferente do que vivemos, abordando perseguições, padrões sociais adversos, praticas diferenciadas e hábitos sócio-culturais avessos ao que temos hoje era o que os cristãos da época conviviam e buscavam superar com a certeza da promessa de que o inferno não iria prevalecer sobre ela.

1 – A distribuição geográfica dos primeiros cristãos

O cristianismo foi fundado no meio de uma sociedade dominada pelos romanos. Baseando-se nesse fato, não é difícil entendermos que o mundo social, politico, cultural e econômico girava em torno de Roma e sua alta aristocracia.

Também sabemos que Jesus Cristo nasceu e começou sua pregação no meio dos judeus e para os judeus. Estes por sua vez não o aceitaram como o Messias, dando espaço a outras culturas e povos abraçarem a Boa Nova. A maior prova desta verdade sem dúvida nenhuma foi a rapidez e a força que o Evangelho teve logo no inicio da caminhada da Igreja.

Jesus Cristo assim ordenou a sua Igreja: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”(Mct. 28,19). Ora, se o objetivo era a evangelização de todas as nações, obviamente era preciso que a mensagem se disseminasse o mais rápido e ao maior número de pessoas possível. Então, como fazer isso?

O caminho natural a ser seguindo era estabelecer os centros de difusão do Evangelho nos locais onde fosse possível propagar-ló o às grandes massas, que por sua vez pudessem levar para outros lugares, disseminando assim a Palavra do Senhor, transmitida oralmente na grande maioria das vezes, visto a grande dificuldade de publicações amenizadas apenas com a criação da imprensa tipográfica por Gutemberg em 1439.

Logo após a ascensão do Senhor e o dia de Pentecostes, a Igreja ficou sediada ainda em Jerusalém. Logo após sua prisão e libertação pelo anjo de Deus, Pedro transferiu-se para Antioquia, consequentemente deslocando a sede da igreja pra lá, onde ficou 7 anos, estruturando e preparando aquela que seria a epopeia de sua vida e da então embrionária Igreja.

Por volta do ano 45 d.c, São Paulo estabelecera a Igreja em Roma que em seguida foi confirmada por São Pedro por volta do ano 49 dc, onde foi martirizado em 67 dc.

Assim, o centro do cristianismo foi consolidado no centro do império dominante na época, corroborando para sustentação e frutificação da nova religião que remonta a Palestina do Ano 30 dc, como podemos ler nas Sagradas Escrituras (Mct. 16,18-19).

No fim do século I até aproximadamente o primeiro quarto do século II, a Igreja estava confinada no mediterrâneo e nas cidades costeiras. era possível encontrar comunidades. De Azoto a Antioquia, passando por Jope, Sebaste, Cesárea, Ptolemaida, Tiro e Sidônia. Nesse período, começou-se a penetração nas terras sírias e na Ásia Menor. Cidades da Grécia e da Península italiana também eram atingidas, porem apenas no século IV e V, o cristianismo atingiu a região rural destes lugares. Esta expansão dava-se quase que exclusivamente em virtude dos portos e cidades comerciais. Os primeiros mensageiros da Boa Nova eram pessoas humildes, na sua maioria pescadores, comerciantes e viajantes, e essa condição facilitava em muito a disseminação nos primeiros anos. Iremos abordar a vida social dos primeiros cristãos logo em seguida. A crucificação de São Pedro e a decapitação de São Paulo se deram por volta do ano 65 e 67 DC. Estas vias também facilitavam o deslocamento do Evangelho até os pontos do norte da África, unindo as pontas do mediterrâneo e estabelecendo uma grande comunidade cristã em Alexandria.Também a costa oriental do Mediterrâneo era muito rica em comunidades. De Antioquia a Pergamo, passando pelas cidades que orbitavam Éfeso. Ao contrário do que se possa imaginar, o grande centro de disseminação evangélica na Ásia não era Jerusalém, mas Antioquia, pois se tratava de uma grande cidade costeira, cruzamento de grandes rotas comerciais com a Ásia Menor, Europa, Baixo Mediterrâneo e as terras afastadas da Índia, esta sendo evangelizada pelo Apóstolo São Tomé.Com a ascensão de Marco Aurélio ao trono romano, A geografia Igreja entrou em uma nova fase. A igreja agora vai da Germânia a Mesopotâmia (atual Iraque). No oriente, ultrapassa Edessa e o reino parto. Comunidades em Trier e Nísibe são encontradas. Foi uma época muito rica também na região entre os “Dois Farois“.De Cartago e Alexandria vinham vários bispos e gênios. A navegação mostrou-se mais uma vez o veículo disseminador mais eficaz da Boa Nova. Lion e Veneza também se fortalecem, formando também grandes comunidades e grandes alicerces para o cristianismo. Na costa Africana, estendia-se do golfo de Gabes ao oceano Atlântico, englobando Proconsular, Numídia e da Mauritânia.No fim do século II, o cristianismo católico(universal, o mesmo em todos os lugares da mesma forma) estava presente em todas as cidades e metrópoles do império romano. Da Germânia a Grécia, da Grã-Bretanha ao Mediterrâneo ocidental, Ásia Menor e África, o Evangelho se espalhou de maneira espantosa até para os padrões da época. A Mensagem de Cristo era recebida de todas as formas, por todas as pessoas de várias crenças e hábitos diferentes, o que fazia com que o império fosse literalmente invadido pelo fé em Cristo, como nos disse Plinio, o Jovem.2 – Métodos de disseminação do EvangelhoCom a expansão da Igreja, a necessidade de uma unidade da mesma tornava-se cada vez maior. Esta unidade era estabelecida a medida que a Igreja ia crescendo na fé e no coração dos homens. Todos tinham muito claro nessa época que a Igreja em Roma era uma espécie de controladora e reguladora da doutrina cristã. Seus bispos eram constantemente consultados sobre a dogmática, resolução de impasses doutrinários, novas óticas e novos estudos referentes ao evangelho, o que proporcionou desde cedo a insatisfação de algumas pessoas. Essas insatisfações geraram grupos gnósticos e pensamentos deturpados da verdadeira natureza do Evangelho de cristo, tentando transformar Deus em uma mera fábula ou mera filosofia.A comunidade era, assim como em nossos dias, dividida em igrejas autônomas, porem todas elas observavam a obediência dogmática, moral e doutrinária à Igreja em Roma. Desde sempre a intensão da Igreja era ter a mesma linguagem em todos os lugares, pois em virtude da comunicação ser feita de uma maneira bem diferente das que temos hoje, a garantia de sua uniformidade era vital para a sustentação e o seu crescimento correto e homogêneo. Essa comunicação na época era feita de diversas maneiras. Algumas delas são:
  • Mensagens escritas: Os bispos escreviam diversas cartas, bulas, livros e decretos apostólicos entre si, no intuito de estabelecer, da melhor maneira possível, a unidade da pregação e da formação da Igreja. Estas cartas eram levadas por mensageiros, navegantes, andarilhos e até mesmo por legionários pretorianos convertidos.
  • Viajantes e Andarilhos: Estes homens percorriam as cidades, levando consigo mensagens orais ou escritas para as Igrejas. Tratavam-se de ensinos doutrinários, histórias de martírios, conversões e noticias sobre a perseguição em outras cidades. Muitas vezes eram fugitivos destas, que procuravam refugio em outras cidades, levando consigo a experiência e a vivência da fé.
3 – Meio Social

“Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal”. Assim Jesus rezou as vésperas de sua paixão. Nosso Senhor soube desde sempre que a influência do meio seria algo crucial e o gerenciamento do conflito que a vida no Evangelho implicaria talvez no maior desafio enfrentado pela Igreja. Não era a vontade de Cristo isolar os cristãos em comunidades auto-suficientes, isoladas da sociedade ou formar um reino utópico onde apenas as verdades proclamadas por Ele e pelos apóstolos seriam consideradas.

Precisamos entender que a sociedade onde a Igreja floresceu era autocrata, absolutista, mas extremamente politizada. Diferente do que se pode pensar, a aceitação a religiões diferentes ao paganismo era bem vista pelo Imperador, desde que houvesse no meio dos cultos uma prece especial a ele.

Desta maneira, eram tolerados os cultos de povos conquistados. A maior exigência era que dentro destes cultos, era que não fosse fomentados o espirito revolucionário e que fosse, na medida do possível, igualar o Imperador a suas divindades ou colocar-ló em lugar de destaque dentro da religião.

Durante o século I, a Igreja era ligada quase diretamente ao culto judaico, visto sua origem. As regalias religiosas concedidas aos judeus. Isto começou a gerar diversos conflitos entre as lideranças judaicas, ao ponto de que no século II, a distinção de ambas religiões eram bem claramente distintas por todo império.

Você pode ler e pensar que o Império Romano era generoso e tolerante com diversos cultos. Por certo eram sim, pois a própria concepção politeísta da religião romana abrangia diversas possibilidades de crenças e deuses. Então por quê os cristãos foram tão perseguidos durante o Império Romano?

Uma coisa que não se admite em nenhum governo absolutista é a transferência de poder para outro foco senão o governante. O cristianismo tinha como foco principal a figura de Cristo e a vida segundo o Evangelho. Diversas coisas contribuíam para que o cristão fosse visto de maneira diferente e até discriminatória. No tocante politico, o que mais amedrontava o imperador eram o desprezo total e irrestrito a morte e a nivelação social promovida pela nova religião.

Imagine o escândalo que era, por exemplo, um membro da corte real sendo batizado ou recebendo o sacramento da confissão de um escravo, como era o caso dos Papas Calixto e Pio, ambos com marcas de seus senhores e conduzindo de maneira brilhante a Igreja nos seus primeiros passos. Isso escandalizava a sociedade e era motivo de muita preocupação para as classes dominantes.

Em todos os níveis sociais o cristianismo estava presente e expandia-se com força e solidez. Tertuliano, escritor do Século II dizia que “O sangue dos mártires era a semente da Igreja”4 – Unidade da Igreja 4.1 – A primazia da Igreja de Roma sobre as demais. A Transferência da Sede da Igreja para Roma.A igreja mostrava-se desde seu inicio, a Igreja de Cristo era difundida principalmente por palavras e pregações nos meios marginais até o ponto de atingirem os grandes salões das cortes do Império Romano.

Uma das coisas que causa muita controvérsia a mente de algumas pessoas é o seguinte fato:
Sendo Jesus Cristo nascido na Judeia, bem como seus primeiros discípulos, por quê então transferir o controle da Igreja para a capital do Império da Época e não permanecer em Jerusalém?

A resposta a esta pergunta, a principio extremamente contraditória, é facilmente respondida quando analisamos o contexto histórico e fatos marcantes que ocorreram na época. Os 3 motivos principais a esta decisão fora:

  • Centralidade da Cidade de Roma com relação ao Império, o que facilitaria e muito a disseminação do Evangelho pelo mundo. Este fato é exemplificado pela forma como a Igreja se distribuía, como vimos no primeiro tópico.
  • Destruição da Cidade de Jerusalém no ano de 70 Dc. Este fato deixou a cidade de Jerusalém completamente destruída e financeiramente arruinada. Num cenário caótico como esse e ainda com o aumento exponencial da perseguição, seria impossível manter a estrutura organizacional e a liderança única da Igreja, conforme desejava nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 21,15-17).
  • A prisão e perseguição sofridas por São Pedro em Jerusalém(At 12). Logo após São Pedro ser milagrosamente liberto do cárcere por um anjo, ele foi obrigado a deslocar-se para a Antioquia e em seguida para Roma.

Todos estes fatos demonstram o porquê da mudança da sede da Igreja Católica para a cidade de Roma. A grande necessidade de se formar uma base sólida e consolidada a Igreja, estabelecer uma unidade doutrinária, disseminar o evangelho pelo mundo e combater filosofias e pregações heréticas, fazia com que os seus líderes fosse divididos nas grandes cidades e sendo Roma a maior de todas elas, nada mais natural que ela fosse escolhida para este fim.

4.2 -Unidade e universidade não são uniformidade:

Desde o princípio, a Igreja constantemente procura abraçar a fé de uma maneira unitária e universal, com intuito de evitar a propagação de teorias deturpadas e heresias provida. Todas as comunidades reconheciam a Igreja de Roma como o sustentáculo doutrinário e fonte de propagação da sã doutrina desde os primórdios, ao ponto de se criar um jargão popular entre o clero na época que dizia algo próximo a “Roma se pronunciou, a contenda acabou”.

Entretanto não podemos esquecer de uma coisa importante. O fato de se pregar a mesma mensagem em todos os lugares não significa que a mesma seja difundida exatamente da mesma maneira, principalmente em termos culturais.

É fato conhecido que a cultura europeia era completamente diferente da cultura africana e também diferente da Ásia Menor. Lembramos também que cada cidade, assim como em nossos dias, possui uma Igreja particular, com seu bispo independente, colégio clerical, doutores e fiéis.

Cada bispo tinha, e tem, autonomia dentro de sua diocese, sendo responsável pela disseminação da mensagem apostólica, administrar a forma financeira, social e dogmática de sua Igreja, sempre sob a obediência da Igreja de Roma.

Decisões importantes sobre impasses existentes em algumas comunidades eram frequentemente solucionadas mediante a intervenção de dioceses maiores ou pela própria diocese de Roma. Um exemplo disso foi uma contenda dogmática sobre deturpações disseminadas por seitas heréticas, que fez com que o Bispo de Lião, então Santo Irineu, fosse até a cidade, com uma carta dogmática escrita pelo papa, para servir de porta-voz de sua palavra para aquela comunidade.

Bibliografia de apoio: A Vida Cotidiana dos Primeiros Cristãos (95-197), editora Paulus, 1997, de A. G. Hamman,

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