O mito das torturas e da fogueira

FogueirasA morte pela fogueira

A forma de execução na fogueira foi inventada pelos romanos para punir os hereges maniqueístas desordeiros, sendo então incorporada nos costumes da época.

Em 287, o Imperador Diocleciano condenou à fogueira os líderes maniqueus, e condenou seus seguidores a serem decapitados ou a trabalhos forçados nas minas do governo. O imperador Máximo em Tréveris condenou a morte Prisciliano, Bispo de Ávila, acusado de heresia e feitiçaria e condenado por vários sínodos. Prisciliano um pouco antes tinha pedido que os maniqueus fossem coibidos pela espada.

Em 1199, o Papa Inocêncio III dirigia-se aos magistrados de Viterbo nos seguintes termos:

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“Conforme a lei civil, os réus de lesa-majestade são punidos com a pena capital e seus bens confiscados. Com muito mais razão, por tanto, aqueles que, desertando da fé, ofendem a Jesus, o Filho do Senhor Deus, devem ser separados da comunhão cristã e despojados de seus bens, pois muito mais grave é ofender a Majestade Divina do que lesar a majestade humana.” (epist. 2,1)

O papa desejava apenas a excomunhão e o confisco dos bens dos hereges; mas a sua comparação deu ocasião a uma nova prática. O Imperador Frederico II soube aproveitar dessas palavras do Santo Padre, colocando na Constituição de 1220 a frase final de Inocêncio III, e assim decretou em 1224, a pena de morte contra os hereges; e, já que o Direito antigo (romano) assinalava o fogo em tais casos. O imperador condenava a serem queimados vivos. Assim foi instaurada a pena de morte na fogueira na Idade Média.

Como entender a aceitação da Igreja quanto a isso, principalmente se observarmos congregações grandiosas como os franciscanos e os dominicanos, que de maneira tão firme combatiam o pecado?

A resposta para esta pergunta necessita de um aprofundamento muito grande na mentalidade medieval. Naquele tempo, a sensibilidade das pessoas era muito diferente da nossa. A rudeza e o costume com a dor e muitas vezes o desprezo pela vida física eram evidentes. Não havia bem mais precioso do que a salvação da alma para os homens e mulheres desta época (E este deve ser exatamente o nosso pensamento nos dias de hoje).

No tempo do Império Romano pagão, a justiça se julgava incapaz de coibir os criminosos por penas leves e até mesmo pela execução à morte que muitos preferiam desafiar, como acontece até hoje. Por isso, o emprego de formas terríveis de execução, como as fogueiras e as crucificações, era necessário. Por mais incrível que possa parecer, havia aqueles que desafiavam tais formas de execução. Eram então aplicados castigos corporais terrivelmente brutais, os “horribile flagellum”; confisco de bens, desterro, condenação às galeras, morte por degola, sendo então as mais ásperas e temidas a crucificação e a fogueira. Este era o jeito pelo qual os romanos tentavam coibir os crimes. Apesar da morte de São Lourenço, assado em fogo lento, e dos cristãos queimados por Nero, as penas de morte por fogo eram raramente aplicadas aos cristãos.

O primeiro imperador romano cristão, Constantino, aboliu a pena de morte por crucificação, como também a marcação por ferro quente (ferrete), a pena capital foi dificultada e impedida de ser aplicada durante o período da quaresma. Havia também anistia no tempo da Páscoa, as cadeias provisórias foram melhoradas e a guarda dos presos foi conferida aos bispos. O Evangelho abrandava os terríveis costumes dos pagãos e reprimia suas crueldades. Consequentemente a pena de morte na fogueira foi erradicada.

O retorno das fogueiras na Idade Média veio por outro motivo. Quando Carlos Magno (+814) sujeitou os saxões (germanos) no século IX, achou nos nativos a crença nos bruxos e nas bruxas, constatando com preocupação que o povo, então pagão, os queimava vivo. Apesar de seus esforços em abolir tal práxis (W. Neuss), esta de alguma maneira continuou.

Esta ideologia pagã infelizmente foi reavivada durante a Idade Média por influência dos bárbaros. O primeiro caso de condenação foi decretado por Roberto II que no mesmo ano entregou quatorze herege à fogueira, sendo imitado por Pedro II de Aragão em 1197, por Frederico II em 1224 e finalmente os demais países europeus. Até São Luiz IX, santo, a reafirmou em 1229.

Foi, por tanto, o poder secular que restaurou a pena de morte na fogueira e não a Igreja Católica.

No século XIII, a lei dos saxões e dos sábios mandava queimar as bruxas. A crença na sua perversão se firmava cada dia mais.

As história das fogueiras mostra claramente o ressurgimento dos costumes pagãos que estão presentes em nossos dias de formas diferentes e diversas. O poder secular velou-se de sua força, impondo a Igreja tais práticas. Contudo, a caridade evangélica conseguia diminuir o rigor e as condenações mais e mais a cada dia, sendo os mosteiros medievais, povoados por monges disciplinados e de vida extremamente piedosa, um refúgio seguro para muitos sentenciados.

Um caso bem conhecido foi o de São Bernardo que no século XII, quando encontrou um cortejo que levava um condenado durante uma viajem, encheu-se de compaixão e pegou a corda com que levavam o condenado e disse: “Deixe-me este homem, disse, eu o enforcarei com minhas próprias mãos!”. Sem largar a corda, ele o levou ao conde de Champagne e solicitou a entrega do condenado. O conde concedeu a São Bernardo, a quem muito estimava. No mosteiro de Clavaral, “este lobo assanhado se tornou cordeiro”. Foi chamado Constâncio; perseverou trinta anos numa vida piedosa até morrer, na mesma Clavaral, de morte edificante.

Podemos fazer um claro paralelo do cuidado e do zelo com que se aplicavam a tortura e a pena de morte na Idade Média, que muitos dizem ser “um tempo obscuro, onde a Igreja malvada regia o ocidente com mão de ferro, espalhando o terror e a opressão”, é incomparavelmente mais branda e branda do que as torturas executadas pelo regime comunista na China, União Soviética, Cuba, Coréia do Norte, na Alemanha Nazista, na Revolução Francesa, e em muitos outros conflitos posteriores. Nada matou mais e de maneira tão cruel do que o movimento revolucionário, que contabiliza mais de 165 milhões de vítimas ao longo de três séculos.

Que possamos nos fortalecer contra as mentiras que espalham contra a Santa Igreja de Deus. Erros houveram, pois na Igreja existem pecadores como em todo lugar na Terra. Mas nem de longe esses erros levaram a morte de milhões e milhões de pessoas como as ditas “Ideologias para um mundo melhor”.

Que Deus abençoe a todos.

Fonte:

AQUINO, Felipe Reinaldo Queiroz de – Para Entender a Inquisição – Ed. Cléofas – 3ª Edição – 2010 – Páginas 146 a 152.

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