Mel Gibson: “Sou apenas um Católico Apostólico Romano, do modo como eles eram até a metade dos anos 60”

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Cena do filme A Paixão de Cristo, no qual o ator James Caviezel interpreta Jesus
Missas em latim aos domingos, peixe na sexta-feira, muito incenso e nada de meninas como coroinhas – os católicos tradicionalistas adoram o modo como a Igreja costumava ser. Limitados a um papel discreto na Igreja de hoje, esses adversários das inovações encontraram um improvável defensor de sua causa no ator Mel Gibson, cujo filme The Passion of the Christ (A Paixão de Cristo) estreou na quarta-feira nos cinemas norte-americanos provocando polêmica.
Cenas brutais de tortura e da crucifixão lembram a forma medieval de retratar os últimos momentos da vida de Cristo. Diálogos em línguas antigas, entre as quais o latim, fazem renascer a linguagem usada pela Igreja para celebrar missas por mais de 1,5 mil anos até a década de 60, quando as línguas modernas tomaram seu lugar.
O filme parece muito diferente dos sucessos de bilheteria anteriores de Gibson – comédias românticas ou filmes de ação apimentados com generosas doses de sexo. Mas, apesar de toda a atenção despertada pela produção, os tradicionalistas continuam a ser uma minoria diminuta, com pequenas chances de assumir um papel de maior destaque dentro da Igreja Católica. “O número de tradicionalistas nos EUA é minúsculo em relação aos mais de 68 milhões de católicos”, afirmou William Dinges, da Universidade Católica da América, em Washington. Segundo o estudioso, havia 320 locais de culto para tradicionalistas nos EUA.

O maior movimento do tipo, a Sociedade do Santo Pio X, com sede na Suíça, pode ter algumas centenas de milhares de seguidores em todo o mundo, uma gota no oceano quando comparada com os 1 bilhão de fiéis da maior igreja da Terra.
O papa João Paulo II, cujas idéias tradicionais e meios de comunicação modernos cativam os católicos conservadores, tentou em vão conduzir os rebeldes de volta ao Vaticano. Mas, comentando os 25 anos de papado do atual líder católico, o chefe da Pio X, bispo Bernard Fellay, disse neste mês que as negociações com o Vaticano estavam paralisadas e que a abertura do papa para outras religiões havia “subvertido a ordem desejada por Deus”.
Poucos, mas fervorosos
O que falta aos tradicionalistas em números, sobra-lhes em fervor. Todos se opõem às reformas impostas pelo Segundo Concílio Vaticano (1962-65) para adaptar a Igreja à era moderna. Eles insistem na preservação da Missa Tridentina, a liturgia antiga realizada em latim, e consideram o diálogo dos católicos com outras religiões uma negação da auto-imagem tradicional da Igreja como o único caminho da salvação.
Vários fundaram suas próprias igrejas. A Pio X possui 454 padres e quatro bispos, todos excomungados pelo Vaticano. Mas não há uma organização central e eles discordam a respeito de alguns detalhes. “Há gradações de envolvimento”, disse Dinges.
Situados em uma das pontas desse espectro, os sedevacantistas (do latim, “cadeira vazia”) “representam os tradicionalistas mais radicalizados”, afirmou o estudioso. Eles acreditam que todos os papas depois de João 23 (1958-63) são usurpadores porque suas reformas violaram as leis da Igreja.
Hutton Gibson, pai do ator, foi criticado por defender essa vertente do movimento e por dar declarações sobre o Holocausto consideradas por alguns como anti-semitas. Mel Gibson não se manifesta tão abertamente como o pai sobre sua fé e negou veementemente que seu filme seja anti-semita, tendo chamado o anti-semitismo de um pecado. “Sou apenas um católico apostólico romano, do modo como eles eram até a metade dos anos 60”, afirmou na semana passada.
Mel Gibson diz que filme é fiel ao Evangelho
“Não penso ter traído o Evangelho, acho que fui fiel a ele”, disse Mel Gibson, ao falar de seu controvertido filme, “A Paixão de Cristo”, em entrevista à correspondente em Los Angeles do jornal francês Le Figaro. “Simplesmente acho que o Evangelho é uma verdade. Baseio a minha fé nos testemunhos do Evangelho”, disse o ator e diretor australiano, que afirma querer contar esta história sem artifícios. “Não são as Escrituras segundo Mel. De certa forma, é minha interpretação e minha visão, mas não penso ter traído o Evangelho. Acho que fui muito fiel a ele”, disse o diretor.
Para ele, Jesus Cristo “morreu pelos pecados de todos os homens de todos os tempos”. “Alguns, especialmente em certas épocas passadas, acusaram os judeus pela morte de Jesus Cristo, mas todos somos irmãos na culpa”, afirmou em alusão à principal polêmica que cerca o filme. “E o Vaticano tem condenado todas as forças de racismo e anti-semitismo”, reforçou.
Mel Gibson disse também que o desejo de contar a vida de Jesus remonta a 12 anos. “Cheguei a tal ponto de angústia pessoal que realmente era hora de parar e questionar a mim mesmo. Assim foi, graças à fé e à atenção especial que dediquei à Paixão, coração da fé cristã. Foi assim que consegui voltar à vida”, contou.
O filme de Mel Gibson arrecadou na Quarta-feira de cinzas, dia de sua estréia nos cinemas dos Estados Unidos, US$ 20 milhões. Para sua exibição foi necessário disponibilizar 4,6 mil salas ao invés das 2,5 mil inicialmente previstas.
Há meses aguardado por alguns grupos cristãos e muito criticado por organizações judaicas que o consideram anti-semita, o filme recebeu críticas ferozes na estréia por sua violência. Durante uma projeção no Kansas (região central dos Estados Unidos), uma mulher morreu de uma crise cardíaca durante a cena da crucificação.
“A Paixão de Cristo” – que conta as últimas 12 horas de Jesus – gerou muitas críticas de várias organizações – cristãs e judaicas – que expressaram o temor de que o filme faça disseminar a idéia de que os judeus foram os assassinos de Cristo.
O presidente do Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais, o arcebispo John Foley, admitiu nesta quinta-feira que ficou surpreso com as críticas de anti-semitismo feitas ao filme, que segundo ele provoca “sentimentos contra o Império romano”.
Padres franceses ajudaram Mel Gibson
Dois sacerdotes franceses de trajetória atípica, os padres Michel Debourges e Jean Charles-Roux, assistiram espiritualmente o ator e diretor australiano Mel Gibson durante as filmagens na Itália. O abade Michel Debourges, de 82 anos, sacerdote do Instituto do Cristo Rei Sumo Sacerdote, uma “sociedade apostólica” tradicionalista, celebrou todos os dias uma missa em latim para o diretor durante as filmagens das cenas externas em Matera (sul da Itália).
“Mel Gibson é um homem de profunda fé”, disse o religioso, que foi ator e se ordenou sacerdote em 1995. Ele conta que, após cada tomada, Mel Gibson o chamava para que visse as imagens e desse sua opinião sobre a exatidão dos fatos.
Em forma de agradecimento, o diretor lhe deu de presente uma mala “de grande valor” com tudo o necessário para celebrar a Eucaristia, contou seu amigo Daniel Hamiche, autor do livro “A Paixão de Mel Gibson de A a Z”.
O padre Jean-Charles-Roux, de 88 anos, substituiu o abade Debourges, durante as filmagens nos estúdios Cinecitta, em Roma. Morador da capital italiana e considerado “excêntrico” por quem o conhece, ele é irmão do escritor esquerdista francês Edmonde Charles-Roux. Seu padre, François Charles-Roux, foi embaixador da França no Vaticano nos anos 30.
O velho sacerdote também celebrava para Mel Gibson “a missa de sempre”, em latim e segundo o rito anterior ao Vaticano II. O eclesiástico disse ter ficado impressionado pelo catolicismo do cineasta.

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