Artes Liberais versus “Artes Prisionais”

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Artes Liberais X Artes PrisionaisEm nossos dias, a evolução tecnológica, o consumismo e a indústria da propaganda impulsionam a busca daquilo que é pioneiro, moderno, inovador e exclusivo, marginalizando tudo aquilo que está estabelecido e consagrado. A cultura antropocentrista dos últimos cinco séculos busca idealizar a figura do homem também como um grande desbravado, sempre enaltecendo aqueles que buscam o que nunca foi pensado, inovando e reinventando constantemente sua vida, sem avaliar a mera possibilidade de a conclusão passada já estabelecida possa simplesmente ser melhor que a sua. Um claro exemplo deste fato está na comparação entre metodologia de ensino medieval e as metodologias de ensino atual.

Observando as Artes Liberais, cujo nome remete a libertação da alma da ignorância e do pecado para assim encontrar com Deus em sua plenitude, unindo para isso o Trivium e o Quadrivium, os quais irei expor na seqüência, temos uma clara noção de como a educação medieval, muito além de preparar o aluno apenas no âmbito acadêmico, o transformava em um homem completo e temente a Deus, não pela imposição tirânica da “malvada Igreja” como muitos dizem, mas pelo conhecimento de Deus e sua ação na vida cotidiana, na natureza e na sociedade. Vejamos no que consiste tal metodologia de estudos:

Veja também

Trivium:

Compõem as três disciplinas mentais que o aluno precisava exercitar durante sua vida acadêmica.

  • Gramática:A arte de dominar os elementos formais da língua, em geral o grego, o latim e a língua local, de maneira a instrumentalizar o estudante para uma clara compreensão clara da leitura e uma boa escrita.
  • Retórica:A arte de aplicar os recursos aprendidos na gramática de maneira a expressar-se de maneira elegante e persuasiva. Esta arte permite ao estudante expor suas idéias de maneira ordenada, permitindo-o estruturar seu raciocínio de maneira concisa e coerente.
  • Lógica dialética:A arte de debater suas idéias de maneira racional e coesa, a fim de buscar a verdade nos campos científicos naturais e supranaturais, permitindo seu desligamento das paixões secantes e desvirtuadas que permeiam os discursos apaixonados e irracionais.

Quadrivium:

Compõem as quatro disciplinas que possibilitam o estudo da matéria, mediante sua contemplação diante de Deus, de maneira a propiciar o entendimento da interconexão entre o físico e o metafísico.

  • Aritmética:A arte de entender os números, as possíveis operações entre eles e suas relações por meio de funções, equações e expressões. Através deste estudo, o estudante conseguia absorver as unidades primordiais das diversas interações dos muitos elementos que compõem o mundo natural.
  • Música:O arte da música nas Artes Liberais remete a teoria musical fundamental. Esta possibilita ao aluno entender a harmina que existe entre as muitas notas musicais, bem como também o introduz a contemplação do belo. Assim, o estudante consegue de fato apreciar e identificar as coisas realmente boas das coisas aparentemente boas.
  • Geometria:A arte de compreender o espaço e as figuras que podem ocupar-lo. Junto com a música, a geometria desperta a sensibilidade do aluno para entender o mundo em que vive, entendendo assim todas as coisas que o compõem.
  • Astronomia:A arte de estudar os astros de maneira a compreender os padrões de deslocamento, os fenômenos físicos oriundos destas atividades. Isso proporciona ao aluno uma compreensão das forças naturais e seus resultados para os seres humanos e o ambiente que vivemos. A astronomia pode hoje ser desmembrada em outras ciências naturais como a física, a química e a biologia.

Este método acadêmico vigorou nas escolas católicas por séculos a fio, possibilitando a criação de toda a civilização ocidental. Nomes como São Tomás de Aquino, São Francisco de Sales, São João da Cruz, Santo Antônio de Pádua, São Francisco de Assis, São João Bosco, São João Batista de La Salle e muitos outros fundadores de ordens religiosas e colégios católicos adotaram esta metodologia de ensino, que muito além de preparar o homem para um convívio social salutar, o conduzia para Deus mediante a modulação do caráter e de sua percepção.

Todo o ensino das Artes Liberais era pautado na disciplina, no desenvolvimento intelectual e na conscientização do aluno do seu papel dentro do espectro social e religioso. Não se havia espaço para propaganda e doutrinação ideológica. O conhecimento e a fé eram de fato a espinha dorsal desta metodologia, pois diferente do que se é propagado hoje, o obscurantismo e a ausência da correta razão afastam o homem do entendimento de Deus e sua ação na realidade.

Hoje, temos um ensino pautado no liberalismo e na dissociação de papeis sociais, permitindo assim a implosão dos limites que devem ser estabelecidos entre os seres humanos para que estes não se destruam mutuamente. Próceres das metodologias de ensino moderno, como o desenvolvimentismo de Jean Piaget, o construtivismo de Emilia Ferreiro, Vigotski e Paulo Freire, cujo único mérito deste último foi criar um sistema de alfabetização que não alfabetiza ninguém, buscam no fundo um nivelamento entre os mestres e aluno, destruindo assim as responsabilidades do mestre de ensinar e do aluno de aprender.

Observando os péssimos resultados obtidos pelo Brasil nos testes internacionais de ensino (53º no PISA 2009) e da qualificação pífia das universidades brasileiras nos rankings mundiais (melhor colocada é a USP em 169º lugar, sendo superada por universidades na Malásia (167º) e África do Sul (157º)), podemos ver claramente o resultado de anos de empenho para a destruição da educação no Brasil. Fica então a pergunta: Por que desmantelar a educação brasileira que já foi modelo a ser seguido nas décadas de 50 e 60? A resposta a esta questão infelizmente não está no âmbito cultural e pedagógico, mas nos comitês e reuniões dos partidos que governam o Brasil hoje mediante a toda uma preparação para a revolução cultural, aos moldes da Escola de Frankfurt. Não irei aqui descrever os modelos educacionais atuais de maneira individual, pois de certo todos eles têm o mesmo princípio, ao qual irei expor a seguir.

Para Antônio Gramsci, filósofo socialista co-fundador do Partido Comunista Italiano e da Escola de Frankfurt, a educação escolar tinha um papel fundamental na revolução cultural socialista, pois formava opiniões, formas de pensar e agir na cultura ocidental. Observou através de estudos filosóficos que a escola criava hábitos religiosos, de amor a família, de respeito a pátria, e a própria noção de cidadania numa sociedade. Assim sendo, propõe a transformação da escola em um instrumento de transformação social, de maneira a conduzir as massas diretamente para a revolução. Para isto, Gramsci sugere a criação da Escola Unitária, onde a proposta pedagógica deveria abordar dois segmentos:

1 – Eliminar a separação entre trabalho intelectual e trabalho manual: Isso seria possível através da existência de um círculo que privilegie tanto as matérias clássicas (matemática, história, geografia, física, etc.) quanto conteúdos ligados a preparação para o trabalho, reduzindo assim a distância entre a valorização do trabalho intelectual e do trabalho manual.

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